sexta-feira, 22 de abril de 2011

A PÁSCOA COMO RENASCIMENTO INTERIOR

Um Processo Circular de Renovação da Vida 
 
 
 
Carlos Cardoso Aveline
 
 
 
ressurreição que a Páscoa cristã comemora anualmente está ao alcance de cada ser humano o tempo todo.
 
O cristianismo velho e triste do dogma, da cruz e da intolerância dará lugar durante o século 21 a uma nova espiritualidade inter-religiosa, filosófica, otimista e voltada para o futuro.
 
A tradição cristã - assim como outras religiões - pode e deve passar por uma morte e um renascimento. A disciplina espiritual é dura e inevitável para quem quiser trilhar o caminho místico. Mas ela não é feita de tristeza ou dogmatismo, e sim de liberdade interior,  responsabilidade própria e contentamento.  
           
A própria base da tradição cristã é pagã, panteísta e ecológica. As principais datas do calendário cristão se apóiam, na verdade, sobre comemorações não-cristãs que celebram o Sol e os ciclos naturais.
           
A Páscoa, por exemplo, é comemorada no equinócio da primavera, no hemisfério norte, e no equinócio do outono, no hemisfério sul.  Nesta época do ano, a noite e o dia têm exatamente a mesma duração. A partir da Páscoa, o equilíbrio entre a luz e a sombra é rompido a favor da luz solar, no hemisfério norte. Por isso, tradicionalmente, a Páscoa é vista como o anúncio de um novo começo e como algo que abre espaço para o ressurgimento da vida em todas as dimensões da natureza.  
           
Até o século 19, ainda era costume em certas regiões da Europa sair para a natureza na madrugada  do dia da Páscoa e assistir ao nascimento do Sol. Havia a convicção de que o astro-rei dançava de alegrianesse dia, logo acima da linha do horizonte, comemorando o novo período anual de predomínio da luz.
           
Nos países do hemisfério sul, onde a celebração da Páscoa marca o equinócio de outono, o  momento anuncia a caminhada em  direção ao inverno. Neste caso, o renascimento da Páscoa não é um processo físico ou externo, mas sim interior e espiritual.  
 
O Natal é outro evento pagão de que o cristianismo apenas se apropriou. O nascimento de Jesus é comemorado exatamente no solstício de inverno do hemisfério norte, o auge da estação fria,  a época do ano em que a noite é mais longa. Daí a neve de algodão nos presépios brasileiros. É a partir do solstício de inverno (24-25 de dezembro) que a luz já não perde mais energia e volta pouco a pouco a recuperar sua intensidade, do ponto de vista dos países situados acima da linha do Equador.  
           
Na Roma pagã, o dia 25 de dezembro era dedicado à festa  do “nascimento do sol invencível”. Foi só em meados do século 4 que a  data foi adotada pelos cristãos para comemorar o nascimento de Jesus, “o sol da justiça”.
           
Assim, a religião cristã é filha e herdeira das antigas tradições  religiosas de comunhão com a natureza e com os astros no céu.  Isso explica por que o texto bíblico Eclesiastes (43: 1-5) celebra o Sol e a Lua deste modo:
           
“Orgulho das alturas,  firmamento de claridade,  assim aparece o céu em seu espetáculo de glória. O Sol proclama ao nascer: ‘Como é admirável a obra do Altíssimo’. Grande é o Senhor  que o fez, e com sua palavra apressa o seu curso. Também a Lua, sempre exata, a mostrar os tempos, é sinal eterno...”
           
Para a filosofia esotérica, a transformação de inteligências cósmicas em figuras antropomórficas e  personalizadas é um processo de produção de metáforas e imagens apenas simbólicas. O cosmo é um grande ecossistema inteligente. Embora Francisco de Assis seja famoso por sua visão universal e  panteísta da natureza, muito antes dele o Eclesiastes já exaltava o relâmpago, a neve, as nuvens, os pássaros, o trovão, os montes, o vento, o deserto, e os encarava todos como aspectos externos do processo divino universal. 
           
A Páscoa simboliza, portanto, o renascimento espiritual de todos os seres como parte do ciclo anual e natural da vida. 
 
“A sabedoria consiste em saber o nosso lugar em cada ciclo vital, e  em saber que tipos de ação são necessários para cada momento”, escreve Richard  Heinberg. [1]  
 
Para quem vive no hemisfério sul, há um clima de renascimento físico no equinócio da primavera, em 23 de setembro, porque nesta época do ano tudo  que é verde passa a ressurgir ao nosso redor.
           
Ao contrário da Páscoa do Norte, a Páscoa outonal do hemisfério sul prepara e anuncia o inverno externo, mas também produz  uma purificação interior. É quando a vida começa a se retirar do plano físico que ela pode florescer melhor no plano espiritual.
 
Antes do renascimento interior, deve haver a morte, a perda, a renúncia, a austeridade, “tapah”, em sânscrito.
 
Quarenta dias antes da Páscoa, no auge das dificuldades e do frio no hemisfério norte, começam a quaresma e o jejum. A palavra “carnaval” vem do latim medieval carnelevarium, que significa “afastar a carne”, abster-se de comer carne.
           
Para alguns, jejum talvez seja uma penitência e um castigo.  Na verdade, comer menos e purificar-se como preparação para um novo ciclo nada tem a ver com castigo ou infelicidade. A prática moderada de jejum é recomendável para a manutenção da saúde. O Jesus do Novo Testamento não foi o único a jejuar. “Todos os grandes mestres da humanidade, dentro e fora do cristianismo, conheciam o mistério dinâmico de dois fatores: o jejum e a oração”, escreveu Huberto Rohden. [2]    E um Mestre dos Himalaias escreveu:
 
“Jejum , meditação, castidade em pensamento, palavra e ação; silêncio durante certos períodos de tempo para permitir que a própria natureza fale a quem se aproxime dela em busca de informação; domínio das paixões e impulsos animais; completa ausência de egoísmo nas intenções, e o uso de certo incenso e certas fumigações com objetivos fisiológicos, têm sido apontados como instrumentos desde a época de Platão e Jâmblico, no Ocidente, e desde os tempos ainda mais remotos de nossos Rishishindus.” [3]
           
O processo de purificação interior que prepara um Renascimento não é necessariamente fácil. Um trecho da Bíblia mostra isso e ilustra a necessidade de coragem. Segundo o Novo Testamento, certo dia, quando já faltava pouco para a Páscoa dos judeus, Jesus foi até Jerusalém.   Chegando ao templo, viu vendedores de bois, ovelhas, pombas e diversos cambistas comodamente sentados e tratando de ganhar dinheiro.  Armado de um chicote, Jesus expulsou-os do templo. (João,  2: 13-22).
           
Talvez a primeira conclusão a tirar do episódio é que a Páscoa não deve ser vista como um processo meramente comercial. Não há nada de errado em comprar e vender. O que se deve evitar é a confusão entre o que é comercial e o que é sagrado. Além disso, a idéia de comércio nesse trecho do Novo Testamento é simbólica. Ela se refere a toda busca de lucro ou vantagem pessoal à custa de outrem. O templo, na verdade, é a própria consciência de cada indivíduo. Os “mercadores” a serem “expulsos” são a cobiça, o medo e ambição.  A verdadeira Páscoa ocorre no mundo interno, e para vivê-la é preciso deixar de lado a avidez por ganhos pessoais, inclusive aqueles que são sutis. A Páscoa real celebra o renascimento interior que vem depois que o eu pessoal toma a dura decisão de deixar de comportar-se como se fosse o centro do universo. Isso ocorre porque ele descobriu, de fato,  a realidade eterna que há além das ilusões pessoais de curto prazo.  
           
Em toda caminhada espiritual há resistências e obstáculos a vencer.  Por isso, no episódio da expulsão do templo, os vendedores discutem com Jesus e o mestre faz um desafio que antecipa o futuro:
           
“Destruam esse templo e o levantarei em três dias”. 
           
O Evangelho acrescenta que Jesus não está falando do templo externo, mas do seu próprio corpo.
           
O corpo físico humano é como um templo que não deve ser desrespeitado porque nele mora um espírito divino, uma alma imortal.  Esse templo pode ser destruído, porque a morte é uma necessidade. Mas ele ressurgirá - porque a cada morte corresponde um renascimento.  A filosofia esotérica concorda com Pitágoras e ensina que a reencarnação é um fato e uma lei.  
           
Nem tudo pode ser dito abertamente, a qualquer momento e para qualquer pessoa.  É preciso ter cuidado com as palavras. Mestre Jesus falava ao povo contando pequenas histórias que possuem vários níveis de significados. Um dia, ele explicou aos seus discípulos mais próximos:
           
“A vocês foi dado o mistério do reino de Deus; aos de fora, porém, tudo é dito em parábolas para que, vendo, não percebam, e, ouvindo, não entendam”. (Marcos, 4: 1-2)
 
O que Jesus mostra nessa passagem é que existe no seu ensinamento um aspecto esotérico (interno) e outro exotérico (externo), “para os de fora”. Uma condição central para ter acesso ao aspecto esotérico do ensinamento é a prática das suas lições na vida diária.
           
“Todo aquele que ouve estas minhas palavras e as põe em prática será comparado a um homem sensato que construiu sua casa  sobre rocha”, disse ele ao povo. “Caiu a chuva, vieram as enxurradas, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, mas ela não caiu, porque estava alicerçada na rocha” (Mateus, 7: 24-27).
           
Para a filosofia esotérica, as escrituras sagradas das diferentes tradições são coleções de mitos, parábolas e narrativas simbólicas. Funcionam como grandes redes generosamente  atiradas pelospescadores de almas ao mar aberto da humanidade, que só pescam e trazem para os círculos internosaqueles que têm discernimento maduro e tentam continuamente praticar o que aprendem, de modo gradual mas crescente.
           
Tais aprendizes vivem em harmonia com o ensinamento e por isso vão adquirindo “olhos para ver” e “ouvidos para ouvir”.  Aos poucos, a sabedoria espiritual forma uma espécie de templo  na mente  do aprendiz. Esse santuário  interior deve ser protegido das oscilações de curto prazo.
           
Jesus usava alegorias,  e a própria vida de Jesus - tal como narrada nos Evangelhos - é uma parábola. Foi montada com base em ensinamentos e narrativas de religiões e tradições mais antigas que o  cristianismo, inclusive o hinduísmo e o budismo.  [4]
           
O nascimento do Mestre, a traição  que sofreu por parte de  alguém  muito próximo e que o levou à morte, a sua ressurreição, e até a promessa de uma “segunda vinda”, são, todos,  pontos que coincidem com uma lenda egípcia muito mais antiga que os evangelhos cristãos -  a  lenda de Osíris.  E há outros elementos “cristãos” tomados da tradição do Egito, como veremos.
           
O costume de falar por parábolas está presente nas antigas escolas de mistérios. No Ocidente, era uma característica  central do ensinamento de Pitágoras, 500 anos antes da era chamada cristã. O cristianismo romano alimentou-se abertamente do mundo grego. O próprio sacrifício de Sócrates,  que viveu de 470 a 399 antes da era cristã,  já foi comparado à lenda evangélica da morte de Jesus  pelo pensador brasileiro Alceu Amoroso Lima. [5]
           
Helena P. Blavatsky explicou:
 
“Cada atitude do Jesus do Novo Testamento, cada palavra atribuída a ele,  e cada fato relacionado a ele durante os três anos da missão que afirma-se que ele cumpriu, estão baseados no Ciclo da Iniciação, um ciclo fundado na precessão dos equinócios e nos signos do Zodíaco”.[6]   
 
O próprio Ciclo da Iniciação é mencionado na lenda dos evangelhos quando Jesus se refere ao “caminho estreito e difícil que só uns poucos encontram” (Mateus, 7:13-14).
           
Em “Ísis Sem Véu”, H.P.B. escreveu:  
           
“Era a doutrina da Índia antiga que Jesus estava pregando, quando recomendava a completa renúncia ao mundo e às suas futilidades para buscar o reino dos céus,  Nirvana”. [7]
           
Jesus ensinava sobre a ressurreição e a descrevia como algo que estará ao alcance -  algum dia -  de todos aqueles que percorrerem o “caminho estreito”.  Mas o que é, exatamente,  ressurreição?  
 
Há vários níveis de resposta para esta pergunta. Vejamos dois deles. Por um lado, a grande ressurreição constitui um projeto de longo prazo. Ela é a libertação espiritual completa, a iluminação definitiva, alcançada apenas por grandes sábios depois de percorrerem,  como Jesus, “todo o ciclo da iniciação”, um processo que envolve repetidas encarnações.
           
Por outro lado, existe também uma modalidade de ressurreição que está apenas um passo à nossa frente. Podemos vivê-la em pequena escala e no estágio de desenvolvimento em que estamos.  Esse é um detalhe decisivo.  Toda longa caminhada deve começar com um primeiro e pequeno gesto feito exatamente onde o indivíduo está.   
           
O primeiro passo só depende de cada um, e cada passo é sempre o primeiro da extensa caminhada. O longo ciclo das iniciações é vivido em pequena escala no dia-a-dia, porque o microcosmo reflete o macrocosmo. O Sistema solar está presente em cada átomo. O caminho do autoconhecimento encontra o seu resumo fiel  num dia de 24 horas e numa  semana de sete dias. O descanso da noite - e o final da semana -  são como a ressurreição.  
 
A celebração da Páscoa – um costume seguramente pré-judaico e inter-religioso - constitui uma prova viva de que a evolução da alma se dá em comunhão com  o ciclo anual do Sol, e de que coincide com o ciclo das grandes iniciações da filosofia oriental.     
           
Os ovos de Páscoa são herança dos festivais pagãos da primavera do hemisfério norte.  Eles simbolizam o renascimento da vida em toda sua variedade.  Já a presença do coelho nesse “festival de renascimento”  pertence à cultura egípcia. A lebre era símbolo da fertilidade e representava  a periodicidade dos ciclos naturais da vida. A tradição afirmava que o coelho costuma esconder ovos de Páscoa para as crianças procurarem.
           
As crianças estão ligadas à Páscoa e, de fato, elas são símbolos indiscutíveis do recomeço da vida.  Internamente todo ser humano é como uma criança até o final da sua existência, porque há nele algo que está  sempre  renascendo.  Quando o indivíduo passa a ser consciente disso, ele vive  mais diretamente a primavera permanente que se oculta em cada uma das quatro estações do ano. E isso não é tudo.  Ele também vive com mais eficiência o ciclo maior das quatro idades de uma vida completa.   
 
O outono simboliza a maturidade. O inverno é a velhice. A primavera é a infância, e o verão, a juventude. As quatro idades são igualmente importantes. Não basta ser como crianças para ter acesso ao reino dos céus, isto é, à consciência nirvânica. Para alcançar a iluminação e receber a bênção eterna, é preciso viver simultaneamente as quatro estações do ano a cada dia.
 
Deve-se combinar a generosidade e a capacidade de aprender, que caracterizam a primavera, com a força e a coragem do verão, que simboliza a juventude.  A maturidade do outono, assim como a sabedoria e a humilde renúncia que são típicas do inverno, constituem características igualmente importantes para quem quer viver a Páscoa de modo completo.    
 
 
NOTAS:
 
[1] Richard Heinberg em “The Meaning of the Solstices”, artigo na revista teosófica The Quest, inverno de 1993, Wheaton, Illinois, EUA.  
 
[2] “O Poder do Jejum”, coletânea, volume da Ed. Martim Claret, 1995, p. 50.
 
[3] “Cartas dos Mahatmas Para A. P. Sinnett”, Ed. Teosófica, Brasília, 2001, edição em dois volumes, Carta 20, volume I, p. 135.
 
[4] Para ver uma demonstração do caráter lendário dos Evangelhos cristãos,  examine o longo trecho da obra “Ísis Sem Véu” em que  Helena Blavatsky faz um estudo comparado das narrativas sobre as vidas de Krishna, Buddha e Jesus. (“Ísis Sem Véu”, H.P.B., Editora Pensamento, SP, edição em quatro volumes, ver volume IV, pp. 165-170, e também p.179, entre outras.) 
 
[5] Platão, “Apologia de Sócrates”,  prefácio de Alceu Amoroso Lima, Edições de Ouro, 16a. edição.
 
[6] “Reply to the Mistaken Conceptions of the Abbé Roca Concerning My Observations on Christian Esotericism”, texto incluído em “Collected Writings”, Helena P. Blavatsky, edição em 15 volumes.  Ver volume IX, TPH, India, 1962, 488 pp., página 225, nota ao pé de página.
 
[7] “Isis Unveiled”, Helena P. Blavatsky, Theosophy Company, Los Angeles, vol. II, p. 286.
 
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domingo, 10 de abril de 2011

Sobre a Verdade – Satya

A Paz Interior Surge do Conhecimento Verdadeiro
 
 
Mahatma Gandhi
 
 
 
 
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O lema do movimento teosófico é “Não há religião superior
à Verdade”. A ideia central da filosofia de Mahatma Gandhi,
como se verá pelo texto a seguir, é a mesma. O fato não é casual, 
porque Mahatma Gandhi descobriu a riqueza cultural do seu próprio
país graças ao movimento teosófico, conforme ele narra no capítulo
20 (Parte I) da sua Autobiografia. É verdade que os teosofistas não
acreditam em qualquer tipo de deus monoteísta, enquanto Gandhi,
falando para milhões de pessoas humildes na primeira metade do
século 20, usava a palavra “Deus”. Porém para Gandhi a divindade
não é alguém que manipula artificialmente o cosmo e os seres humanos.
Segundo ele, “Deus” é apenas a verdade universal, e isso é aceitável para a
filosofia esotérica. A seguir, reproduzimos fragmentos do livro de Gandhi
intitulado “Cartas ao Ashram” (Editora Hemus, São Paulo, 125 pp.)
 
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Abordarei primeiramente a Verdade, pela razão mesma de ser do Ashram Satyagraha [1], que é procurar a Verdade e esforçar-se para colocá-la em prática.
 
A palavra Satya (Verdade) vem de Sat, que significa ser.  Na realidade, não existe nada a não ser a Verdade. É por isso que Satya ou Verdade talvez seja o nome mais importante para Deus. Com efeito, dizer que a Verdade é Deus é mais certo que dizer que Deus é a Verdade. Muitos não imaginam nada além de um soberano ou de um general; os nomes de Deus como Rei dos reis ou Todo-Poderoso são de uso corrente e permanecem entre nós. Se, no entanto, refletimos um pouco mais profundamente, vemos que Sat ou Satya é, para designar Deus, o nome mais exato e que possui um sentido mais completo.
 
Onde está a Verdade está, também, o conhecimento que é verdadeiro. Onde não está a verdade não podemos encontrar o conhecimento verdadeiro. É por isso que associamos a palavra chit, conhecimento, àquela de Deus. E onde se encontra o conhecimento verdadeiro há sempre a felicidade (ananda[2], e não há lugar para a dor. A verdade sendo eterna, também a felicidade que dela deriva o é. É por isso que conhecemos Deus sob o nome de Sat-Chit-Ananda. É o que reúne em si a Verdade, o Conhecimento e a Felicidade.
 
Somente a devoção a esta Verdade justifica a nossa existência. A Verdade deve ser o centro de toda nossa atividade. Ela deve ser o sopro da nossa vida. Quando o peregrino chega a esta etapa do caminho que percorreu, ele descobre sem nenhum esforço as outras regras da vida e a elas se amolda instintivamente. Mas sem Verdade será impossível observar na existência algum princípio ou alguma regra.
 
Crê-se, de forma geral, que para seguir a lei da Verdade é suficiente dizer a verdade. Em nosso ashramdevemos dar à palavra satya, verdade, uma significação mais profunda. A Verdade deve manifestar-se em nossos pensamentos, em nossas palavras e em nossas ações. Para aquele que realizar a Verdade em toda a sua plenitude nada mais resta a aprender, pois todo o conhecimento está necessariamente ligado à Verdade. O que não estiver neste campo não é Verdade e, consequentemente, não é conhecimento verdadeiro. Ora, não podemos ter paz interior sem o conhecimento verdadeiro. Uma vez que apliquemos tal critério infalível da Verdade, poderemos discernir, imediatamente, o que vale a pena ser feito, ou ser visto, ou lido.
 
Mas como realizar esta Verdade, que lembra um pouco a pedra filosofal ou a vaca inesgotável? [3]
 
Chega-se, diz a obra Bhagavad Gita, a uma devoção na qual se consagra tudo ao espírito [4], e se vê com indiferença todos os outros interesses que a vida pode oferecer. Entretanto, apesar de toda esta devoção, o que parece verdade a um parece frequentemente um erro a outro. Que isso não perturbe a procura. Se fizermos um esforço sincero, poderemos perceber que as verdades diferentes na aparência são inúmeras folhas que parecem diferentes, mas que são de uma mesma árvore. [5]
 
 
NOTAS:
 
[1] Ashram: local de retiro em comunidade, comunidade dedicada ao caminho místico. (Nota do editor de “O Teosofista”)
 
[2] Felicidade.  No livro em português temos “alegria”, mas a palavra “felicidade” é mais indicada para traduzir “Ananda”.  O termo também equivale a bem-aventurança. (Nota do Editor de “O Teosofista”)
 
[3] Kamdhenu era uma vaca mitológica que pertencia a um sábio chamado Vasinshtha. Tudo o que se perguntasse a ela, uma resposta era dada. A expressão entrou já na língua corrente de toda a Índia. (Nota da edição brasileira de “Cartas ao Ashram”)
 
[4] Abhyasa. (Nota da edição brasileira de “Cartas ao Ashram”)
 
[5] O texto acima é reproduzido das páginas 25 a 27 de “Cartas ao Ashram” (Ed. Hemus). Antes de ser publicado como texto independente no website www.FilosofiaEsoterica.com, ele foi divulgado na edição de janeiro de 2011 do boletim eletrônico “O Teosofista”.